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Gestores de fundos multimercado começam a migrar apostas para Bolsa americana – Infomoney 14 de abril de 2020

Com expectativa de retomada mais rápida da economia na crise e com maior oferta de ações, alocação em empresas de Wall Street ganha espaço nas carteiras
Por Beatriz Cutait

SÃO PAULO – A queda da ordem de 32% da Bolsa neste ano tem despertado,
desde o início da crise gerada pela pandemia do coronavírus, dúvidas de
investidores com relação ao que fazer com os investimentos. Sacar os recursos
do mercado de ações, em meio a incertezas cada vez maiores e de
expectativas gradualmente piores para o desempenho da economia global,
em especial a brasileira? Ou aproveitar a forte baixa de preços para recompor o
portfólio, de olho em uma retomada no longo prazo?

Por
ora, grandes gestores de recursos têm sinalizado cautela com suas
decisões no mercado brasileiro. Quem tem caixa tem buscado as distorções
de preços para comprar ações que já faziam parte de suas estratégias ou
promover pequenas realocações. O foco está em companhias com negócios
mais resilientes, baixo endividamento e gestão alinhada.

As maiores incertezas sobre o Brasil e os impactos mais profundos a serem
sentidos na economia local impedem, contudo, posições arrojadas no
mercado acionário, no momento. E as preferências se voltam para outra
praça: a americana.

Diante da expectativa de uma retomada mais rápida da economia (e do
mercado) na crise e com maior oferta de ações para a diversificação no novo contexto, a alocação em empresas de Wall Street tem ganhado espaço nas carteiras de grandes gestores de fundos multimercado, principalmente as do setor tecnológico, beneficiadas pelas mudanças em curso.

A Verde Asset, por exemplo, adotou, a partir do início da crise, uma estratégia de aumentar gradualmente as posições do renomado fundo Verde em ações com foco no mercado americano, tido como o mais resiliente e com possibilidade de retomada anterior a de outros países.

Em março, a Verde informou que seu fundo mantinha por volta de 20% do
portfólio em ações no Brasil, mesmo percentual da exposição em ações
globais.

Neste mês, a gestora reforçou que, com uma ampla gama de nomes de
empresas de tecnologia à disposição, o mercado acionário americano
representa hoje a melhor oportunidade para tirar proveito do ciclo de
recuperação previsto. “O mercado já precificou uma brutal queda de
lucratividade das empresas”, escreveram os gestores do fundo, aos cotistas.

Em meio à pandemia, as grandes empresas americanas de tecnologia
despontam entre as maiores beneficiárias das mudanças de hábito
estruturais geradas pelo confinamento, assinalou a Verde.

Ajustes na parcela de risco
Nos fundos multimercado da Bahia Asset, a opção para março foi trocar parte da carteira direcional comprada em bolsa no Brasil para o mercado acionário americano. A expectativa é de que as empresas do S&P 500 consigam reagir primeiramente à retomada no pós-crise.

“Ao longo do mês, seguimos implementando sucessivas reduções de risco e
dando continuidade aos movimentos que vínhamos fazendo desde janeiro,
diminuindo nossa exposição bruta e líquida comprada e ajustando a carteira para essa relevante mudança de cenário”, disse a gestora, em carta aos investidores.

A Legacy Capital também informou estar, “de forma paciente e cuidadosa”,
aumentando progressivamente as posições compradas em ações
americanas. “Por suas características de adaptabilidade, robustez e dinâmica, enxergamos a economia dos Estados Unidos como sendo a mais apta a recuperar-se com rapidez após este episódio”, diz a gestora, em sua carta mais recente aos investidores.

Na avaliação da casa, o Brasil está em uma posição particularmente frágil,
diante de uma economia que já crescia a um ritmo lento antes da epidemia
de coronavírus e com a expectativa de aumento da dívida pública no novo
contexto.

Com um discurso de cautela e à espera de uma contração de 5% do Brasil em 2020, a SPX não tem alocações direcionais relevantes na Bolsa local. Já no mercado acionário internacional, a gestora está priorizando setores e
empresas mais resilientes.

A casa tem posições compradas nos setores de consumo básico, saúde,
tecnologia e em algumas empresas defensivas do setor industrial. As
posições vendidas estão concentradas em índices e setores tidos como mais
frágeis, como varejo, energia e automotivo.

Embora a atividade econômica chinesa mostre sinais de recuperação, a SPX
assinalou, na carta aos cotistas referente ao mês de março, que há enorme
incerteza quanto ao ritmo da retomada, e que há risco de a atividade global
permanecer abaixo da capacidade por muitos meses.

Nos países emergentes, a SPX enxerga um desafio ainda maior.
Diferentemente de 2008, a China e as commodities não serão uma fonte de
ajuda, alerta a gestora. Em live realizada ao fim de março, Rogério Xavier,
fundador da SPX, recomendou aos investidores tomarem cuidado, terem
pouco risco, e sinalizou que o melhor, por ora, é aguardar.

Confira a seguir o desempenho dos fundos multimercado das gestoras
mencionadas em março e no primeiro trimestre de 2020.

Bahia
AM Maraú FIC de FIM -6,54% -7,6%
Ibiuna Hedge FIC FIM 2,01% 3,40%
Legacy Capital FIC FIM -3.97% -4.76%
Kapitalo Kappa -5,93% -8,49%
Kapitalo Zeta -10,82% -15,27%
SPX Nimitz 0,19% 1,53%
Truxt I Macro FIC FIM 0,76% -0,86%
Verde FIC FIM -11,46% -14,15%
CDI 0,34% 1,01%
Ibovespa -29,90% -36,86%
Fundo Rentabilidade em março Rentabilidade no trimestre

Fonte: Economatica

Cautela ainda é palavra de ordem
Se uma parte dos grandes gestores tem migrado as carteiras para as bolsas
americanas, outra parcela segue bastante resistente à tomada de risco.

José
Tovar, CEO da Truxt, ressalta que o cenário é de baixa visibilidade, dadas as
incertezas com relação à data e à velocidade de saída da quarentena. E a
recuperação econômica não deve ser rápida, na avaliação da gestora.

Desde o início de fevereiro, o fundo multimercado macro da casa carregava
pouco risco na carteira, e pretende seguir nesta toada. “Não sabíamos que
teria uma crise de pandemia, mas achávamos os mercados muito esticados,
e resolvemos reduzir o risco. Saímos de Bolsa uma semana antes do
carnaval”, diz Tovar. “Focamos muito em preservação de capital e, quando
não vemos retornos para risco, zeramos a aposta.”

Atualmente a gestora segue sem posição em Bolsa por conta das incertezas
referentes à crise, com preferência por posições defensivas.

Outra gestora de fundos multimercado com uma postura mais cautelosa é a
Kapitalo, que reduziu o risco de forma generalizada, em função do forte
aumento de incertezas relacionadas ao crescimento global. Em sua carta aos cotistas referente ao mês de março, a gestora contou ter diminuído
“significativamente” as posições compradas em ações brasileiras e globais.

A postura conservadora decorre do prognóstico para a economia local – a
Kapitalo estima queda superior a 5% do PIB brasileiro em 2020. “O governo
está adotando diversas medidas fiscais e o Banco Central deverá promover
novos cortes da taxa Selic com o intuito de evitar que este intenso choque
negativo na atividade crie condições para o estabelecimento de um equilíbrio perverso de longo prazo.”

O grau de endividamento do país, contudo, deve impor cautela na
implementação de medidas fiscais anticíclicas, diz a gestora, que também
espera que a política monetária seja ainda mais afrouxada.

A Ibiuna, por sua vez, reduziu as posições mais arriscadas do multimercado
Ibiuna Hedge FIC FIM em renda variável direcional, assim como a exposição a moedas emergentes. Foram ampliados, contudo, os hedges (proteções) contra cenários extremos, via aumento da posição aplicada em títulos do Tesouro americano e na compra de dólar contra real.

A visão é de que, ainda que haja oportunidades atrativas na renda variável, a elevada volatilidade dessa classe de ativos somada às incertezas, demandam prudência na alocação de risco. “Neste momento, preferimos observar de fora a correr o risco de ‘queimar a largada’ nesta que pode ser uma ótima oportunidade mais à frente”, escreve a gestora.