Mercado vê Selic alta durante mais tempo – Valor, 13 de maio de 2022

Expectativas para o IPCA voltam a aumentar em 2022 e 2023

Por Victor Rezende, Marcelo Osakabe e Felipe Saturnino — De São Paulo

O processo de deterioração das expectativas de inflação continua a todo vapor e mostra que o caminho para a política monetária será árduo e exigirá uma taxa de juros que se mantém em níveis elevados por período prolongado. Se antes da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central pesquisa do Valor com projeções de economistas indicava um IPCA de 7,7% neste ano e de 4% em 2023, agora a mediana das 80 projeções coletadas aponta para o índice de preços em 8,4% em 2022 e em 4,2% no próximo ano.

O resultado foi obtido em novo levantamento, feito pelo Valor ontem, logo após a divulgação da leitura de abril do IPCA. E, desta vez, o cenário para a política monetária se mostrou ainda mais restritivo à frente. Embora os economistas continuem a esperar a Selic em 13,25% no fim do ciclo, previsto para junho, o ponto médio das estimativas agora aponta para o juro básico em 9,5% no fim de 2023, e não mais em 9%. O cenário, portanto, se desenha com taxas em níveis bastante restritivos e por um período cada vez mais longo.

Aos poucos, as taxas de juros dos contratos de DI têm se ajustado a esse ambiente. Ontem, na esteira do IPCA de abril em 1,06%, número ligeiramente acima do esperado, e da inflação também mais pressionada nos Estados Unidos, a taxa do contrato de DI para janeiro de 2023 subiu de 13,255% para 13,325%, enquanto a do DI para janeiro de 2024 saltou de 12,865% para 13,025% no fechamento.

“Está quase virando um ato de fé esperar a desaceleração da inflação”, diz a economista-chefe da Panamby Capital, Tatiana Pinheiro, que projeta o IPCA em 9% no fim deste ano e em 5,3% em 2023. “Estamos esperando isso desde janeiro e até agora não aconteceu. Não dá para falar que a inflação não pode ser ainda mais alta. A maior probabilidade é que ela fique abaixo da inflação de 2021, de 10,1%, até porque temos um ciclo gigante de aperto monetário, mas não vai ser super abaixo.”

Pinheiro observa que o Banco Central, desde o início do ano, tem dado sinais de que deseja encerrar o ciclo de elevação da Selic diante dos níveis elevados da taxa básica de juros no momento. “Mas a inflação não dá brecha para que esse fim de ciclo chegue e, pelas projeções à frente, não vai dar tão cedo”, afirma. A economista da Panamby projeta a Selic em 13,25% no fim do ciclo, ao esperar mais um aumento de 0,5 ponto na taxa em junho.

Ela, contudo, não descarta que o BC tenha que estender ainda mais o ciclo de elevação dos juros e avalia que o consenso pode migrar para projeções cada vez mais altas para a Selic no fim de 2023. Pinheiro espera que o juro básico comece a ser reduzido no próximo ano, mas em um ritmo bem mais lento. Enquanto o consenso aponta para a Selic em 9,5% em dezembro de 2023, a economista projeta a taxa em 11%.

Estimativa semelhante é adotada na Truxt Investimentos, com a Selic em 11% no fim do próximo ano, na medida em que a qualidade “excepcionalmente ruim” da inflação coloca o BC em uma situação complicada, aponta o economista-chefe da gestora, Arthur Carvalho.

“Sou simpático ao argumento da autoridade monetária de que muito já foi feito em termos de juros e que é preciso ver o efeito dessa alta na segunda metade do ano. Por isso, entendo que o Copom vai encerrar o ciclo em 13,25%. Só que, como isso não é suficiente para trazer a inflação de volta à meta ano que vem, eles precisarão carregar esse nível por mais algum tempo e só conseguirão começar a cortar a Selic em meados de 2023”, afirma.

O economista da Truxt se mostra mais preocupado, no momento, com a disseminação da alta de preços na economia, e não com o nível em que a inflação está. Em abril, a difusão do IPCA avançou para 78,2%, maior patamar desde janeiro de 2003. “Sabemos que a inflação de hoje ocorre por conta de choques como o de energia, mas os efeitos secundários que vemos hoje são de choques que já aconteceram. Ainda não estamos contabilizando os choques que ocorrem neste momento”, diz.

No levantameno feito pelo Valor ontem, embora a mediana das 83 estimativas coletadas para a Selic no fim do ciclo indique a taxa em 13,25%, é preciso apontar que uma ala do mercado vê o juro básico em 13,75% ou mais no fim do ciclo, com uma extensão do aperto monetário para a reunião de agosto do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC.

A situação peculiar da inflação, que se mostra “bastante rígida”, levou o Fator a esperar que a Selic chegue a 14% no fim do ciclo, revela o economista-chefe do banco, José Francisco de Lima Gonçalves. “Acho que o BC está mais disposto a não parar o aperto em junho. Na ata anterior, o sinal era de desaceleração; a ata de ontem [terça-feira] sinaliza que ele vai andar mais no processo de aperto”, diz.

Para ele, por mais que o BC aponte que não há um viés, “tem uma tendência de adaptação”. O economista, inclusive, nota que o colegiado tem se adaptado às surpresas inflacionárias “e imagino que vão se adaptar mais uma vez”.

O Fator, inclusive, projeta uma inflação bastante pressionada, de 9,5% neste ano, e de 5,2% em 2023, ao observar que a taxa de câmbio deve se depreciar diante de um cenário mais restritivo para as condições financeiras globais, o que pode levar a novos aumentos no diesel, na gasolina e no gás. “Os serviços também seguem altos. Então, temos esses vieses de inflação para cima e eu não consigo ver a economia fraca ajudar tanto a inflação a ficar mais baixa”, afirma.

O economista-chefe da Daycoval Asset, Rafael Cardoso, dá ênfase, em especial, a diferenças entre o atual ciclo e a elevação de juros vista em 2015 e 2016. “Lá, o mercado de trabalho mostrava sinais de fraqueza. Agora, vemos um mercado de trabalho que ainda não apresenta esses sinais. Da ótica inflacionária, a percepção é de uma inflação mais alta e justamente de uma parte conhecida por ter um caráter mais inercial.”

Cardoso pontua que a inflação de serviços deve desacelerar quando a atividade econômica arrefecer, já que o mercado de trabalho tende a ficar menos aquecido nesse cenário. “Mas se a política monetária está com juros lá em cima e o governo mantém a demanda mais aquecida, isso faz a inflação de serviços ganhar fôlego extra devido a esse impulso extra na demanda”, diz o economista, para quem o IPCA deve ficar em 7,9% neste ano, com a Selic em 13,25% no fim do ciclo e em 9,5% no fim de 2023.

Na avaliação do economista Helcio Takeda, da consultoria Pezco, os problemas do lado da produção, que dominaram as preocupações em 2021 e no começo deste ano, transbordaram e agora também são visíveis no setor de serviços, cuja inflação já roda perto de 7% em 12 meses.

“Os efeitos secundários das altas dos [preços] administrados devem continuar contaminando a inflação ainda em 2023”, diz Takeda, que projeta o IPCA do próximo ano em 5,1%, acima do teto da meta (4,75%). O economista lembra que, no processo de desinflação de 2016 e 2017, a dinâmica dos preços demorou para melhorar mesmo diante de uma recessão severa. “Como a perspectiva para a atividade esse ano é melhor, isso aumenta o desafio do BC de fazer a inflação voltar à meta”, observa o profissional.