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NEWS

13.maio.2022
Mercado vê Selic alta durante mais tempo – Valor, 13 de maio de 2022

Expectativas para o IPCA voltam a aumentar em 2022 e 2023

Por Victor Rezende, Marcelo Osakabe e Felipe Saturnino — De São Paulo

O processo de deterioração das expectativas de inflação continua a todo vapor e mostra que o caminho para a política monetária será árduo e exigirá uma taxa de juros que se mantém em níveis elevados por período prolongado. Se antes da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central pesquisa do Valor com projeções de economistas indicava um IPCA de 7,7% neste ano e de 4% em 2023, agora a mediana das 80 projeções coletadas aponta para o índice de preços em 8,4% em 2022 e em 4,2% no próximo ano.

O resultado foi obtido em novo levantamento, feito pelo Valor ontem, logo após a divulgação da leitura de abril do IPCA. E, desta vez, o cenário para a política monetária se mostrou ainda mais restritivo à frente. Embora os economistas continuem a esperar a Selic em 13,25% no fim do ciclo, previsto para junho, o ponto médio das estimativas agora aponta para o juro básico em 9,5% no fim de 2023, e não mais em 9%. O cenário, portanto, se desenha com taxas em níveis bastante restritivos e por um período cada vez mais longo.

Aos poucos, as taxas de juros dos contratos de DI têm se ajustado a esse ambiente. Ontem, na esteira do IPCA de abril em 1,06%, número ligeiramente acima do esperado, e da inflação também mais pressionada nos Estados Unidos, a taxa do contrato de DI para janeiro de 2023 subiu de 13,255% para 13,325%, enquanto a do DI para janeiro de 2024 saltou de 12,865% para 13,025% no fechamento.

“Está quase virando um ato de fé esperar a desaceleração da inflação”, diz a economista-chefe da Panamby Capital, Tatiana Pinheiro, que projeta o IPCA em 9% no fim deste ano e em 5,3% em 2023. “Estamos esperando isso desde janeiro e até agora não aconteceu. Não dá para falar que a inflação não pode ser ainda mais alta. A maior probabilidade é que ela fique abaixo da inflação de 2021, de 10,1%, até porque temos um ciclo gigante de aperto monetário, mas não vai ser super abaixo.”

Pinheiro observa que o Banco Central, desde o início do ano, tem dado sinais de que deseja encerrar o ciclo de elevação da Selic diante dos níveis elevados da taxa básica de juros no momento. “Mas a inflação não dá brecha para que esse fim de ciclo chegue e, pelas projeções à frente, não vai dar tão cedo”, afirma. A economista da Panamby projeta a Selic em 13,25% no fim do ciclo, ao esperar mais um aumento de 0,5 ponto na taxa em junho.

Ela, contudo, não descarta que o BC tenha que estender ainda mais o ciclo de elevação dos juros e avalia que o consenso pode migrar para projeções cada vez mais altas para a Selic no fim de 2023. Pinheiro espera que o juro básico comece a ser reduzido no próximo ano, mas em um ritmo bem mais lento. Enquanto o consenso aponta para a Selic em 9,5% em dezembro de 2023, a economista projeta a taxa em 11%.

Estimativa semelhante é adotada na Truxt Investimentos, com a Selic em 11% no fim do próximo ano, na medida em que a qualidade “excepcionalmente ruim” da inflação coloca o BC em uma situação complicada, aponta o economista-chefe da gestora, Arthur Carvalho.

“Sou simpático ao argumento da autoridade monetária de que muito já foi feito em termos de juros e que é preciso ver o efeito dessa alta na segunda metade do ano. Por isso, entendo que o Copom vai encerrar o ciclo em 13,25%. Só que, como isso não é suficiente para trazer a inflação de volta à meta ano que vem, eles precisarão carregar esse nível por mais algum tempo e só conseguirão começar a cortar a Selic em meados de 2023”, afirma.

O economista da Truxt se mostra mais preocupado, no momento, com a disseminação da alta de preços na economia, e não com o nível em que a inflação está. Em abril, a difusão do IPCA avançou para 78,2%, maior patamar desde janeiro de 2003. “Sabemos que a inflação de hoje ocorre por conta de choques como o de energia, mas os efeitos secundários que vemos hoje são de choques que já aconteceram. Ainda não estamos contabilizando os choques que ocorrem neste momento”, diz.

No levantameno feito pelo Valor ontem, embora a mediana das 83 estimativas coletadas para a Selic no fim do ciclo indique a taxa em 13,25%, é preciso apontar que uma ala do mercado vê o juro básico em 13,75% ou mais no fim do ciclo, com uma extensão do aperto monetário para a reunião de agosto do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC.

A situação peculiar da inflação, que se mostra “bastante rígida”, levou o Fator a esperar que a Selic chegue a 14% no fim do ciclo, revela o economista-chefe do banco, José Francisco de Lima Gonçalves. “Acho que o BC está mais disposto a não parar o aperto em junho. Na ata anterior, o sinal era de desaceleração; a ata de ontem [terça-feira] sinaliza que ele vai andar mais no processo de aperto”, diz.

Para ele, por mais que o BC aponte que não há um viés, “tem uma tendência de adaptação”. O economista, inclusive, nota que o colegiado tem se adaptado às surpresas inflacionárias “e imagino que vão se adaptar mais uma vez”.

O Fator, inclusive, projeta uma inflação bastante pressionada, de 9,5% neste ano, e de 5,2% em 2023, ao observar que a taxa de câmbio deve se depreciar diante de um cenário mais restritivo para as condições financeiras globais, o que pode levar a novos aumentos no diesel, na gasolina e no gás. “Os serviços também seguem altos. Então, temos esses vieses de inflação para cima e eu não consigo ver a economia fraca ajudar tanto a inflação a ficar mais baixa”, afirma.

O economista-chefe da Daycoval Asset, Rafael Cardoso, dá ênfase, em especial, a diferenças entre o atual ciclo e a elevação de juros vista em 2015 e 2016. “Lá, o mercado de trabalho mostrava sinais de fraqueza. Agora, vemos um mercado de trabalho que ainda não apresenta esses sinais. Da ótica inflacionária, a percepção é de uma inflação mais alta e justamente de uma parte conhecida por ter um caráter mais inercial.”

Cardoso pontua que a inflação de serviços deve desacelerar quando a atividade econômica arrefecer, já que o mercado de trabalho tende a ficar menos aquecido nesse cenário. “Mas se a política monetária está com juros lá em cima e o governo mantém a demanda mais aquecida, isso faz a inflação de serviços ganhar fôlego extra devido a esse impulso extra na demanda”, diz o economista, para quem o IPCA deve ficar em 7,9% neste ano, com a Selic em 13,25% no fim do ciclo e em 9,5% no fim de 2023.

Na avaliação do economista Helcio Takeda, da consultoria Pezco, os problemas do lado da produção, que dominaram as preocupações em 2021 e no começo deste ano, transbordaram e agora também são visíveis no setor de serviços, cuja inflação já roda perto de 7% em 12 meses.

“Os efeitos secundários das altas dos [preços] administrados devem continuar contaminando a inflação ainda em 2023”, diz Takeda, que projeta o IPCA do próximo ano em 5,1%, acima do teto da meta (4,75%). O economista lembra que, no processo de desinflação de 2016 e 2017, a dinâmica dos preços demorou para melhorar mesmo diante de uma recessão severa. “Como a perspectiva para a atividade esse ano é melhor, isso aumenta o desafio do BC de fazer a inflação voltar à meta”, observa o profissional.

05.maio.2022
Copom deixa porta aberta para continuar subindo juros e mercado se divide sobre até onde a Selic vai – InfoMoney, 4 de maio de 2022

Por Mitchel Diniz

Autoridade monetária sinaliza com mais uma elevação em junho, mas não indicou desfecho para o ciclo de aperto monetário

O desejo de encerrar o ciclo de aperto monetário em maio chegou a ser expressado de forma enfática pelo próprio presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Mas a mensagem do Comitê de Política Monetária (Copom), no comunicado que acompanhou sua última decisão, frustrou essa expectativa, apontando para uma nova alta da Selic em um próximo encontro. Ou seriam novas altas?

“A comunicação tentou se desamarrar de um compromisso com uma taxa a frente e se amarrar com um compromisso de trazer a inflação de volta à meta e garantir ancoragem de expectativas ao redor da meta”, afirmou Mariana Dreux, gestora da Truxt Investimentos, durante live do InfoMoney.

A decisão da reunião, em si, não surpreendeu, justamente porque cumpriu com o que havia sinalizado no encontro anterior. O Copom elevou os juros básicos da economia em 1 ponto percentual, para 12,75% ao ano, a maior taxa em mais de cinco anos. Algumas casas acreditavam que o ajuste desta reunião de maio seria o último e até previam uma redução de juros ainda 2022.

“Por tudo o que está sendo expressado pelo Copom, por todo o cenário externo e interno, não vejo essa possibilidade muito prática para o BC este ano”, afirma Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos.

No texto do comunicado que acompanhou a decisão, o Copom afirmou que o ambiente externo seguiu se deteriorando e as pressões inflacionárias decorrentes da pandemia se intensificaram, com uma nova onda de Covid-19 na China. A elevação de juros em economias desenvolvidas aumentam as incertezas e geram volatilidade adicional para os países emergentes.

“A inflação ao consumidor seguiu surpreendendo negativamente. Essa surpresa ocorreu tanto nos componentes mais voláteis como nos itens associados à inflação subjacente”, diz o texto. Com essa justificativa, a autoridade monetária apontou para um novo ajuste, em menor magnitude, na próxima reunião do Comitê, marcada para os dias 14 e 15 de junho.

“O tom do Copom foi até mais hawkish que o mercado esperava. Ele não sinalizou ajustes apenas na próxima reunião, deixou as portas para ir além, ao dizer que o Comitê vai perseverar em sua estratégia até que se consolide o processo de desinflação e a ancoragem de expectativa em torno de suas metas”, afirma Cruz. Ele aposta em uma alta de 0,5 ponto em junho, com chances de encerrar o ciclo de aperto monetário em 13,25%. “Mas é preciso observar a ata da reunião, para ver se há o risco de ir além”.

Mercado dividido após decisão

A XP não esperava que as altas da Selic terminassem agora e apostava numa taxa de 13,75% ao final do ciclo de aperto, projeção que, por enquanto, foi mantida. Caio Megale, economista-chefe da casa, acredita que poderá haver mais dois ajustes de 0,5 ponto ou até mesmo uma outra alta de 1 ponto percentual na próxima reunião.

“A atividade econômica está até mais forte do que se imaginava, então existe demanda final para se repassar preços, já que os custos de produção continuam em alta. A projeção da XP para inflação este ano é de alta de 7,40%, mas vemos riscos de chegar até 9% facilmente”, afirma Megale. As projeções de inflação do Copom, atualmente, situam-se em 7,3% para 2022 e 3,4% para 2023.

Os cenários do Copom têm sido bem mais otimistas do que os traçados pelo BNP Paribas. O banco espera 10% de inflação para 2022 e 5% para inflação de 2023. “Olhando para nossa persistência de inflação um pouco maior, acreditamos que o BC vai ter que fazer um pouco mais do que o comunicado mostrou”, afirma Laiz Carvalho, economista para Brasil do BNP.

Já Luca Mercadante, economista da Rio Bravo, observa que, no comunicado, o BC não avaliou o balanço de riscos como altista. “Desta vez, preferiram ressaltar a volatilidade do balanço, indicando que podemos estar próximos do final do ciclo”, afirma. A Rio Bravo prevê que o Copom faça um último ajuste na Selic, na reunião de junho, elevando à taxa para 13,25%.

Essa também é a aposta da Necton e da Kínitro Capital. “A questão se centra na dinâmica inflacionária; se de fato a inflação no Brasil começar a recuar em 12 meses, já em maio teremos uma boa chance da curva de juros por aqui recuar”, diz André Perfeito, economista-chefe da Necton.

“Ainda existe uma chance desse incremento adicional de juros não acontecer na reunião de junho, caso ocorra uma surpresa para baixo de inflação. Mas acreditamos que esse cenário detém menor probabilidade”, afirma Sávio Barbosa, economista-chefe da Kínitro Capital.

Carla Argenta, da CM Capital, acredita que o Brasil terá uma taxa de juros acima de 13% daqui a 45 dias, quando o Copom se reunir novamente. A depender do desenrolar do cenário internacional, os ajustes podem não parar por aí.

“Vale lembrar que essa taxa de juros não tem mais impacto sobre a inflação de 2022, ela está mirando na inflação de 2023. Para o BC esse controle é extremamente necessário, uma vez que a inflação de 2021 já ficou muito acima do limite superior da meta e o mesmo deve acontecer em 2022. É importante para que a instituição mantenha a sua credibilidade”, conclui.

26.out.2021
Selic deve chegar a dois dígitos em 2022– Valor, 26 de outubro de 2021

Com deterioração fiscal, analistas veem taxa acima de 10%
Por Felipe Saturnino, Anaïs Fernandes e Victor Rezende — De São Paulo

O entendimento de que há uma mudança no regime fiscal e a forte deterioração das expectativas de inflação que teve início na semana passada devem levar o Banco Central não só a acelerar o passo do aperto monetário, como também a levar o juro básico a um nível maior no fim do ciclo de alta.

As projeções já tinham subido bem desde a última pesquisa do Valor, de 24 de setembro, quando a mediana das estimativas de 75 instituições financeiras e consultorias apontava para a Selic em 8,75% no fim do ciclo. Mas, até a semana passada, ainda eram poucas as casas que trabalhavam com um número de dois dígitos. Agora, a mediana de 89 analistas consultados ontem aponta para uma taxa de 10,5% no fim do ciclo.

Cerca de 74% das instituições e consultorias apostam que a Selic deve chegar a pelo menos 10% e, embora a faixa de 10,5% concentre, sozinha, mais projeções (22,5%), quase 27% das casas esperam que o juro básico chegue a pelo menos 11% em 2022.

Os economistas demonstram preocupação com a mudança na mediana das previsões do Boletim Focus para o IPCA de 2022 – horizonte predominante da política monetária atual -, que passou de 4,18% na semana anterior para 4,40% agora. A “violenta desancoragem” deve “machucar um bocado o modelo do BC, junto com o câmbio mais depreciado”, afirma Arthur Carvalho, economista-chefe da Truxt Investimentos.

“O movimento visto nas projeções do Focus foi o primeiro na direção de desancoragem das expectativas de inflação”, diz Paulo Val, economista-chefe da Occam. A gestora trabalha com uma Selic de 11,25% no fim do ciclo, a ser atingida no primeiro trimestre de 2022.

Aguardar até a reunião de dezembro do Comitê de Política Monetária (Copom) para ajustar a dose de alta para 1,5 ponto percentual “seria esperar demais”, avalia Val. Ele espera duas elevações dessa magnitude neste ano.

“Consequentemente, [o Copom] também tem que buscar um nível final de juro maior para se contrapor à deterioração dessas expectativas e aos efeitos do câmbio. Isso seria uma mensagem incisiva e inequívoca de que ele [BC] irá perseguir a meta e fazer o que for necessário, como sua comunicação tem deixado bastante claro”, diz Val. Para a Occam, o IPCA atingirá 4,6% em 2022, perto do teto da meta (5%).

Diante do novo pano de fundo fiscal, o UBS BB aumentou, na semana passada, a projeção de Selic ao fim do ciclo de 9,25% para 10,25%, em uma trajetória que considera dois apertos de 1,5 ponto e uma alta de 1 ponto no primeiro Copom de 2022. “Flexibilizar o teto, que é uma maneira delicada de dizer que o teto será furado um pouco, incorre em mais custos para a política monetária”, diz o economista-chefe, Alexandre de Ázara.

Para ele, o risco, caso o BC não reaja no atual cenário, é o país entrar em dominância fiscal, isto é, quando a alta de juros se torna contraproducente para combater a inflação. “Acho que a gente está longe disso, mas quando a política fiscal tira o pé, ela deixa mais trabalho para a política monetária.”

Na visão de Paula Magalhães, economista-chefe da A.C. Pastore & Associados, do ex-presidente do BC Affonso Celso Pastore, se a autoridade monetária deixar claro que fará “o que for preciso” para colocar a inflação na meta, e não só nas ações, mas também no seu comunicado, o país pode escapar da dominância fiscal. “Vimos um salto muito forte no Focus. O BC não pode olhar para isso e fingir que não aconteceu nada”, diz a economista.

Segundo Magalhães, a consultoria já via sinais de um início de desancoragem das expectativas porque a média das projeções para o IPCA em 2023 do Focus rodava acima da mediana e, assim, projetava Selic a 9,5% no início de 2022.

“Mas teve esse choque na semana passada, em que ficou muito claro que nossa âncora fiscal não existe mais. Neste caso, mudamos a visão e o BC vai ter de agir mais rápido, com duas altas de 150 pontos-base [1,5 ponto], deixando em aberto o que vai fazer no ano que vem, para verificar o que vai acontecer daqui até lá”, afirma. Para ela, fugir de uma Selic de dois dígitos parece improvável.

Caso se concretize a dose mais agressiva de ajuste, de 1,50 ponto, em meio a um nível de incerteza tão elevado, o Copom deverá deixar os próximos passos em aberto e optar por manter os graus de liberdade, observa Carvalho, da Truxt. A gestora espera duas elevações de 1,50 ponto na taxa, com a Selic em 11% no fim do ciclo.

Val, da Occam, diz que o BC pode até parar em 11,25% para observar, mas o risco permanece assimétrico para que o Copom tenha de continuar apertando ainda mais a política monetária.

24.mar.2021
Inabilidade de escolher e as suas consequências – Valor, 24 de março de 2021

Há tempo para que as escolhas certas sejam feitas, por meio de reformas fiscais mais bem planejadas e duras
Por Arthur Carvalho

O dilema fiscal brasileiro não está de novo no centro do debate porque há uma nova crise, mas porque é profundo e estrutural e não há saída fácil desse imbróglio. Enquanto movimentos mais estruturais e profundos não forem feitos, nunca abandonaremos essa eterna angústia de eminência de uma crise toda as vezes que o cenário externo se deteriorar, ou a classe política decidir que é necessário gastar mais.

A pandemia e o seu consequente custo para o governo só exacerbou o problema, que o próprio governo já tentava atacar com as PECs enviadas no final de 2019 para reduzir a rigidez das despesas.

Quando no final do ano passado, aqui nesse espaço, alertamos para o dilema fiscal à frente dado o estado da pandemia e a necessidade de se estender o auxílio emergencial, o governo garantia que isso não ocorreria. No entanto, a realidade se impôs e uma extensão do auxílio foi aprovada até o mês de Junho, por enquanto. O governo lutou para que houvesse algumas contrapartidas fiscais para que pelo menos no médio prazo algum congelamento de gastos compense mais essa despesa. No entanto, a dinâmica política entregou contrapartidas pequenas, na nossa opinião.

O dilema fiscal certamente não é sobre R$ 30 bilhões ou R$ 40 bilhões a mais de gastos, mas sim sobre a incapacidade de os poderes fazerem escolhas diante do cenário que se impõe. Em 2020 foram gastos mais de R$ 450 bilhões acima do teto, portanto, certamente gastar apenas 10% desse valor em 2021 não deveria ser um problema. No entanto, os agentes que analisam a solvência do Brasil se preocupam não com o valor em si, que de fato é pequeno, mas sim com as preferências reveladas pelos
agentes públicos sobre a trajetória fiscal.

Como o economista Felipe Salto do IFI (Instituto Fiscal Independente) vem sinalizando, há inúmeras iniciativas que poderiam quase que compensar inteiramente esta nova rodada do auxílio. Por exemplo, caso os salários dos militares não fossem reajustados como planejado se economizariam R$ 7 bilhões, mais R$ 2,5 bilhões poderiam ser economizados caso concursos fossem adiados. Subsídios ainda dentro do teto também poderiam ser revertidos economizando-se quase R$ 14 bilhões. Ou seja, não se pode dizer
que não há de onde cortar, mas sim que se escolhe não cortar ao mesmo tempo que se escolhe gastar mais. Existem ainda outras desonerações que poderiam ser desfeitas que não afetariam o cálculo do teto, mas certamente beneficiariam a dinâmica da dívida.

A incapacidade de fazer escolhas difíceis sinaliza de alguma forma que há uma elevada probabilidade de uma extensão do auxílio emergencial além de junho. Afinal de contas, o nível de desemprego que, assumindo a taxa de participação em níveis pré-pandêmicos, está hoje acima dos 20%, dado as perspectivas para a economia ao longo dos próximos meses, dificilmente estará muito abaixo disso. Portanto, mesmo que a campanha de vacinação esteja finalmente avançando, é pouco provável que a economia, e muito menos o mercado de trabalho que reage de forma muito lenta, estejam em níveis que dispensem algum tipo de extensão do auxílio, principalmente para a classe política que tende a ser mais sensível a essas demandas.

Além de aumentar o prêmio de risco fiscal de longo prazo, essa política fiscal frouxa, forçou o Banco Central a mudar a política monetária para compensar tais escolhas, como de fato historicamente sempre foi o caso no Brasil.

Até a passagem da emenda constitucional do teto de gastos o Brasil tinha um mix de políticas disfuncionais, com uma política fiscal sempre expansionista e uma monetária muito contracionista, com juros muito acima dos seus pares. Ao não fazerem escolhas compensatórias para gastos que são de fato necessários, a classe política parece não entender que está possivelmente devolvendo o Brasil para seu equilíbrio pré-teto de gastos.

Dado que o nível de juros é próximo do mínimo histórico, que são claramente incompatíveis com uma política fiscal mais frouxa, não só o Banco Central terá que subir juros a um passo mais rápido do que antecipava, mas terá que ir além do ajuste parcial que hoje planejam.

A inabilidade de fazer escolhas difíceis para a classe política pode estar revertendo importantes avanços conquistados pela sociedade brasileira nos últimos anos. O resultado dessa inabilidade será certamente uma combinação de políticas públicas subótimas, nas quais a política fiscal está provavelmente excessivamente expansionista, e certamente mal focalizada, devido à captura do estado pelos grupos de interesse.

Enquanto isso, a política monetária que impacta toda sociedade através do crédito, dentre outros canais, estaria excessivamente contracionista. Óbvio que isso não está sacramentado. Ainda há tempo para que as escolhas certas sejam feitas, por meio de reformas fiscais mais bem planejadas e duras, que possam demonstrar que, diante do dilema do teto de gastos, a classe política seja capaz de fazer as escolhas certas e manter as importantes conquistas dos últimos anos.
Arthur Carvalho é economista-chefe da Truxt

18.mar.2021
‘Copom terá de levar juros para o nível neutro’ – Valor, 18 de março de 2021

Para Arthur Carvalho, da Truxt, decisão do Copom de levar Selic a 2,75% foi “apropriada”
Por Victor Rezende — De São Paulo

Foi apropriada a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de elevar a taxa básica de juros
em 0,75 ponto percentual, para 2,75% ao ano, e já indicar um novo aumento de mesma magnitude em maio. É o que avalia, em entrevista ao Valor, o economista-chefe da Truxt Investimentos, Arthur Carvalho, para quem,
contudo, o cenário continua bastante desafiador, especialmente em relação à inflação. Além de trabalhar com o IPCA em 4,9% no fim deste ano, a gestora carioca projeta a inflação em 4,0% em 2022, nível que já supera o centro da meta.

Não por acaso, Carvalho aponta para a possibilidade de as expectativas de inflação de 2022 começarem a se afastar do nível de 3,5%. Uma desancoragem “muito séria”, na avaliação do economista, poderia ser considerada uma mudança significativa no cenário básico do Copom, já que o colegiado enfatiza, no documento, que sua estratégia de normalizar parcialmente a política monetária é compatível com o cumprimento da meta no ano que vem.

“O que a PEC fez foi permitir o cumprimento do teto juridicamente, mas, de fato, ele está sendo rompido”

O economista da Truxt, porém, diz ter achado “meio confuso” o ajuste parcial explicitado pelo Copom no documento. “Dá a entender que eles tentarão deixar a política monetária ainda em nível estimulativo. Acredito que o Copom vai se surpreender e terá de levar os juros para o nível neutro ou, até mesmo, para um campo levemente contracionista”, afirma.

Confira, abaixo, os principais trechos da entrevista:
Valor: Foi acertado já começar o ciclo com uma alta de 0,75 ponto?

Arthur Carvalho: Foi apropriado. Apesar de eu ter achado que o BC não entregaria um movimento mais agressivo que 0,50 ponto, foi uma decisão acertada. Vejo como algo positivo. O Copom deixou bem claro que, a não ser que algo aconteça até a próxima reunião, haverá um outro aumento de 0,75 ponto e isso é importante até mesmo para evitar que o mercado ache que ele terá de acelerar o passo. O Copom está tentando ancorar as expectativas do mercado.

Valor: No comunicado, o Copom enfatiza que se trata de um ajuste parcial da política monetária

Carvalho: Achei isso meio confuso porque dá a entender que eles tentarão deixar a política monetária ainda em nível estimulativo. Acredito que o Copom vai se surpreender e terá de levar os juros para o nível neutro ou, até mesmo, para um campo levemente contracionista. Nessa parte, acredito que eles estão com um cenário base que precisará ser corrigido na medida em que o cenário de inflação pior no ano que vem for se materializando, assim como um ambiente fiscal também pior. O Copom vai ter que fazer algo maior do que aquilo que está prevendo hoje. Antes da reunião, já tínhamos um cenário mais agressivo do que o consenso e projetávamos a Selic em 5,50% no fim do ano. Talvez, agora, possa chegar a 6%, mas seria um ajuste fino em relação ao nosso cenário base.

Valor: O Copom aponta para mais uma alta de 0,75 ponto em maio caso não haja uma mudança significativa no cenário. O que poderia causar isso?

Carvalho: Uma desancoragem muito séria das expectativas de inflação de 2022, por exemplo. Se o consenso do Focus migrar para 4%, por exemplo, isso pode ser considerado significativo pelo Copom. Eles chamam a atenção, no comunicado, para o fato de que, apesar dos choques, as expectativas de 2022 estão ancoradas. Seria uma mudança significativa se isso se perder. Uma alteração mais profunda no arcabouço fiscal também seria algo significativo, mas não acho tão provável assim nos próximos 45 dias.

Valor: As expectativas de inflação de 2022, que estão em 3,5%, podem começar a desancorar?

Carvalho: Esperamos inflação de 4,9% neste ano e de 4,0% em 2022. Como muitos preços não subiram este ano, isso pode acabar pressionando a inflação em 2022. Além disso, tem o fator da inércia. Existe, sim, uma possibilidade razoável de as expectativas de inflação de 2022 começarem a sair de 3,5%. Elas podem começar a desancorar. A mediana das projeções no Focus ainda está em 3,5%, mas a média já começou a subir e isso indica que os economistas já têm começado a mudar seus números.

Valor: O risco fiscal se mantém elevado mesmo após a aprovação da PEC emergencial?

Carvalho: O BC dizia claramente que, em seu cenário básico, o teto de gastos deveria ser cumprido de fato. O que a PEC fez foi permitir o cumprimento do teto juridicamente, mas, de fato, ele está sendo rompido. O gasto está
crescendo acima do estimado anteriormente para o teto. Independentemente de coisas positivas que estão no projeto, para o BC, da maneira como ele caracterizou, houve uma mudança para pior. O fiscal ficou mais frouxo. Além disso, não tenho certeza de que o BC tem a clareza de que o furo no teto pode não se limitar a R$ 44 bilhões. Se chegarmos a junho com uma situação ainda bastante delicada na pandemia e com o mercado de trabalho fragilizado, o que é bem possível, pode ser que se declare um estado de calamidade e se estenda o auxílio emergencial além de junho. Eu não acho que a incerteza em torno da questão fiscal foi reduzida por causa da PEC. E isso está ligado às condições do mercado de trabalho como um todo. Dificilmente alguém consegue dizer que em
junho não teremos mais necessidade de fazer nada. É só lembrar que, em dezembro, tanto o governo quanto o próprio BC diziam que o cenário base era não ter mais nada de auxílio neste ano. O grau de incerteza é parecido.

Valor: O Copom voltou a dar ênfase à incerteza sobre o ritmo de crescimento. O que é possível esperar para a atividade com o recrudescimento da pandemia?

Carvalho: Já tínhamos um número negativo no primeiro trimestre e o nosso medo é de que, com a implementação dos novos lockdowns agora em março, tenhamos um mês de abril mais fraco. O balanço de riscos para o
crescimento no segundo trimestre está bastante negativo. O processo de vacinação também é chave e faz diferença nos números devido ao impacto na mobilidade. Quanto mais lenta for a vacinação, pior será a nossa hipótese para a mobilidade e, como consequência, para o resultado do crescimento, principalmente no setor de serviços. No momento, projetamos uma queda de 0,2% do PIB no primeiro trimestre, seguida de uma contração de 0,8% no segundo trimestre. Para o ano, temos um PIB de 3,3%. Um fator, contudo, me deixa apreensivo neste momento. Lá no primeiro colapso de mobilidade, tivemos uma queda forte dos serviços, mas, depois de 30 dias, a indústria e o varejo começaram a ir bem. Dessa vez, como existem gargalos que foram formados ao longo dos últimos 12 meses,
é possível que o retorno da renda, com a volta do auxílio emergencial, redirecione o consumo para o mercado de bens, que deve ter uma oferta mais restrita.

Valor: Faz sentido a normalização monetária ter início com a atividade ainda enfraquecida?


Carvalho: A inflação deve continuar pressionada mesmo em um cenário de atividade fraca. Não vamos mais ter aquele espaço de desinflação que a pandemia abriu no ano passado. E, por isso, o BC vai ter de manter uma postura vigilante. Lá atrás, o BC olhou para a pandemia e conseguiu enxergar que ela era desinflacionária no primeiro momento. Isso permitiu a ele ter uma postura de acomodar os choques com uma política monetária expansionista. Neste momento, não dá para ter a mesma postura. O BC foi obrigado a começar um processo de normalização da política monetária. Já há um processo inflacionário em curso e, possivelmente, a segunda rodada de lockdowns pode ser mais inflacionária por causa desses gargalos na economia.

Valor: Já o Fed não parece preocupado com a inflação nos EUA…


Carvalho: O discurso de ontem foi bem claro de que eles precisam ver a inflação marginalmente acima da meta por um período para entender que os objetivos foram atingidos. Ainda não estamos vendo isso. É interessante olhar para a modelagem do Fed e ver que o núcleo de inflação roda em 2%, 2,1%, mesmo após um anúncio fiscal incrivelmente poderoso. Isso mostra que o Fed está ainda bastante paciente. O juro longo nos EUA pode continuar subindo, já que estava em nível muto baixo, mas a questão é a velocidade. Até mais importante é avaliar o juro real. Se a abertura dos juros for devagar e se o juro real não subir muito, isso não vai incomodar os emergentes.

https://valor.globo.com/financas/noticia/2021/03/18/copom-tera-de-levar-juros-para-o-nivel-neutro.ghtml

18.dez.2020
Brazil faces hard spending choices in 2021 – The Economist, dezembro 2020

The poor received huge welfare payments during the pandemic. These may soon dry up

In the final days of a tight mayoral race in November in São Gonçalo, an unglamorous city across the bay from Rio de Janeiro, one of the candidates, a retired police officer known as Capitão Nelson, made his way down a street lined with supporters. The mood was euphoric. A maskless man with a bottle of sanitiser on a string around his neck stomped his feet to funk music and squirted the gel into the air “to kill the germs” of the rival party. Humberto Perez, a handyman, likes the captain “because he cares about poor people, just like the president”, Jair Bolsonaro. After work dried up in March a monthly payment from the federal government kept him from going hungry. “And the campaign gave me a free lunch,” he said, with a toothy grin.

The fact that some Brazilians are celebrating during a pandemic that has killed 180,000 of their fellow citizens is among covid-19’s many paradoxes. So is the reason for their cheer: that a right-wing, pro-market government has rolled out the biggest welfare programme in Brazil’s history. Before the pandemic, extreme poverty was on the rise. Nearly 1m families were on the waiting list for Bolsa Família, a conditional cash-transfer programme that the government had cut back after a recession in 2014-16. In March 2020 widespread hunger seemed imminent. Paulo Guedes, the economy minister, proposed to spend no more than 5bn reais ($1bn), 0.2% of the budget, to fight the pandemic.

But momentum began to build in Brazil’s Congress to provide a basic income to poor people. Realising that it risked looking miserly, the government announced that it would give monthly payments of 600 reais to 68m Brazilians, a third of the population. Single mothers got twice that. In September the government halved the benefit, called auxílio emergencial (emergency aid), but extended it until the end of 2020. Brazil’s fiscal response to the pandemic, which also includes job-retention schemes, adds up to more than 8% of gdp, among the highest for g20 countries and twice the average for emerging markets. Congress declared a “state of calamity” to allow the government to bypass a constitutional ceiling on spending.

But with public debt approaching 100% of gdp, the government now faces a moment of truth. The state of calamity ends on December 31st, and with it the auxílio. Brazil can do one of three things: chop welfare spending to pre-pandemic levels, breach the ceiling or enact fiscal reforms that would allow it to maintain both. The third choice is the best, but it is also the most difficult. Since a landmark pension reform in 2019, the government has done little to cut spending or improve its effectiveness.

The auxílio has been a remarkable success. For more than 7m informal workers who lost their jobs, it was a crucial safety-net. It tripled payments to 14m families who had received an average of 190 reais a month from Bolsa Família. The auxílio lifted 1m people out of extreme poverty (see chart) and kept another 15m from becoming poor. Fundação Getulio Vargas (fgv), a university, found that Brazil’s Gini coefficient, a measure of inequality, swiftly dropped from 0.55 to 0.49, which is a lot. Poverty and inequality are the lowest since fgv began tracking them in 1970.

Brazilians whose pockets were empty after years of low growth bought televisions and ovens. Millions opened their first bank accounts. The poor north-east experienced a construction boom. After a 9.7% contraction in the second quarter, the economy grew 7.7% in the third. It will shrink in 2020 by half as much as many economists had predicted.

Mr Bolsonaro’s approval ratings climbed, smoothing the way for an alliance with the centrão (big centre), a bloc of opportunistic centre-right parties in Congress. “The expectation of victory and power brings us together,” says Ricardo Barros, now the government’s whip. Centrão candidates were the biggest winners in the local elections. They included Capitão Nelson, who won an upset victory against his left-wing rival. He promised money for new clinics and more police.

That will be a hard promise to keep. The stimulus was a “huge dose of anaesthesia that numbed the pain of the pandemic”, says Marcelo Neri of fgv. On January 1st “it will wear off”. The unemployment rate of 14.6% is the highest it has ever been. People in the poorest half of households have lost 28% of their earnings. “Unwinding all the extraordinary support in the coming months could risk derailing the incipient recovery,” warns the imf. Millions could fall into poverty.

If Brazil tapers spending gradually, as other countries plan to do, it will breach the ceiling, which was enacted in 2016 to control rising debt. It limits growth in most federal expenditure to the previous year’s rate of inflation. Because 94% of the budget is eaten up by mandatory spending (chiefly pensions and salaries), little is left for investment and social programmes. In 2019 the government spent 30bn reais, or 0.4% of gdp, on Bolsa Família. The auxílio cost ten times that.

Some Brazilians think the ceiling is essential to prevent an eventual default. But Brazil’s debt is largely denominated in its own currency, which reduces that risk. If interest rates were to rise uncontrollably, the Central Bank could buy government debt. The cap matters more as a sign of commitment to reforms, says Arthur Carvalho of Truxt Investimentos, a hedge fund. “If you can’t cut anything in a mammoth state to fund an important social programme, you can’t make choices,” he says. The imf urges Brazil to keep the ceiling and make space for a more targeted benefit in 2021 by “swiftly” passing money-saving reforms. Brazil risks hyperinflation if it scraps the spending ceiling, warned Mr Guedes in an interview with The Economist.

Neither big reforms nor a change in the spending cap is in prospect, which means welfare spending is set to fall. The damage to the poor will be modest, Mr Guedes thinks. The beneficiaries of the auxílio “were alive before the pandemic”, he said. “They had informal jobs” cleaning houses or selling sweets on the beach. “If the economy recovers they’ll be back.” Mr Guedes is bullish about that. “We will end this year with zero net jobs lost in the formal labour market,” he predicts. “I challenge any country to beat our record.”

His boss is less relaxed. Mr Bolsonaro wants to launch a new programme, Renda Cidadã (Citizens’ Income), which would help more families than Bolsa Família, although fewer than the auxílio. But he has rejected proposals for how to pay for it. “I can’t take away from the poor to give to the poorer,” he said when Mr Guedes suggested trimming other programmes.

There are other ideas. Congress is considering an “emergency” constitutional reform that would curb public-sector pay and tax exemptions. This would free a bit of cash for welfare. More would be available if that reform were coupled with an amendment to make the spending limit more flexible during crises, suggests Monica de Bolle of the Peterson Institute for International Economics, a think-tank in Washington. “You could do this without spooking markets,” she says. But Congress signalled last week that it will discuss the emergency measures only in February at the earliest. Mr Guedes promptly said he would take a holiday.

The government and Congress could put off a reckoning by extending the state of calamity, using a second wave of covid-19 as its justification. Mr Guedes has hinted he might endorse that. It would merely postpone the choice between fiscal reform and welfare cuts. The auxílio “can’t last for ever”, says Carlos Jordy, a congressional ally of Mr Bolsonaro who attended Capitão Nelson’s rally. Mr Perez, the handyman, may learn painfully that there is no such thing as a free lunch.

Editor’s note: Some of our covid-19 coverage is free for readers of The Economist Today, our daily newsletter. For more stories and our pandemic tracker, see our hub

This article appeared in the The Americas section of the print edition under the headline “Awaiting their fate”

01.dez.2020
Bolsa tem melhor mês desde março de 2016 com volta de estrangeiros – Valor, 2 de dezembro de 2020

Ibovespa sobe 16% em novembro com cenário externo favorável a ativos de risco
Por Adriana Cotias — De São Paulo

A volta do estrangeiro para a bolsa brasileira trouxe um novo combustível para as ações. Em novembro, o Ibovespa subiu quase 16% – o melhor desempenho mensal desde março de 2016 e o melhor resultado para esse mês desde 1999. No ano, o principal índice da bolsa ainda perde 5,84%, sob efeito da pandemia de covid-19. Para o investidor com alguma liquidez, a sugestão é manter uma parcela em ações, com um horizonte acima de três anos, além de buscar diversificação em classes alternativas como fundos imobiliários e exposição ao exterior.

No mês passado, a recuperação dos ativos de risco foi generalizada. Entre os índices setoriais da B3, destaque para o de companhias do setor imobiliário (16,5%) e de menor capitalização (16,6%). Na renda fixa, o IMA-B 5+, que representa uma cesta de títulos públicos atrelados à inflação com prazo a partir de cinco anos, ganhou 2,6% – no ano ainda está negativo em 1,9%. Até o real se apreciou, com a queda de 7,6% do dólar, enquanto o ouro, ativo de proteção, perdeu 11,6%.

Assim como o capital estrangeiro, as boas notícias vieram do exterior. A proximidade de uma vacina contra a covid-19, a vitória do democrata Joe Biden na corrida eleitoral americana, casada com um Senado republicano, e a indicação de Janet Yellen para comandar o Tesouro dos EUA turbinaram os mercados internacionais. Os emergentes acompanharam, diz José Alberto Tovar, sócio-fundador da Truxt Investimentos.

“Houve algumas transferências, uma rotação importante de ativos. Como consequência, tudo que tinha sido esticado demais no mundo da pandemia está voltando um pouco”, resume Tovar. O gestor diz que essa troca de ativos vem perdendo intensidade e que a tendência é os mercados entrarem num período de menor volatilidade.

Vulnerabilidade fiscal é fonte de preocupação e a responsável pelas altas taxas no mercado futuro de juros

Com Biden na presidência dos EUA, as relações comerciais com a China e países do bloco europeu devem ganhar maior previsibilidade, inaugurando uma fase de disputas menos abrasivas, diz Tovar. “O externo melhorou bastante, o que ajuda os emergentes considerados ‘value’ [negociados a um preço abaixo do seu valor], com menos tecnologia, e o Brasil pegou carona nesse movimento.”

Lamentavelmente, o gestor diz que o quadro fiscal é muito ruim e que é grande a dúvida sobre o que será feito para manter o programa de auxílio para as famílias de baixa renda, e se as pressões para mais gastos no Congresso vão prosperar. “O presidente [Jair Bolsonaro] se mostra animado com a força eleitoral de uma renda cidadã, mas se o teto for quebrado, vai tirar toda a credibilidade [da política econômica].” O risco, diz Tovar, é a pauta de reformas só ser retomada depois da eleição das presidências da Câmara e Senado.

Depois de o governo gastar o equivalente a 8% do PIB no auxílio emergencial, o caminho da austeridade fiscal é a única escolha racional, diz o sócio da Truxt. É essa incerteza que tem mantido a curva de juros extremamente inclinada e o câmbio depreciado apesar de o balanço de transações correntes estar arrumado.

A inflação observada nos preços de atacado e nos alimentos também é vista com preocupação pelo gestor. “O governo diz que é passageiro, mas é onde pega o povo na veia. É muito punitivo. Ainda bem que o cenário externo está mais amigável.”

Por ora, o multimercado da casa tem uma pequena aposta na alta das taxas dos contratos de juros com vencimento em janeiro de 2025. A avaliação de Tovar é que já passou da hora de o Banco Central (BC) subir a Selic porque, com juro real negativo, a autoridade tem sido uma grande tomadora de risco.

Em meio à migração de investimentos da renda fixa para a bolsa, Tovar diz estar animado com a carteira de ações que a gestora montou, aproveitando as barganhas trazidas durante a pandemia. “Temos alta convicção nas empresas que a gente conhece há muito tempo, que são bem geridas, e têm capacidade para enfrentar a crise.”

As escolhas transitam entre três temas: casos ligados à tecnologia, a vendas internacionais e à tese do “financial deepening” – a sofisticação dos mercados financeiros e de capitais. Na carteira, há nomes como XP, BTG Pactual, Stone, Mercado Livre e Magazine Luiza, além de uma parcela na construtora Cyrela, pelo perfil de empreendimentos destinados às classes altas, que vêm investindo mais nas próprias casas.

O momento geopolítico aparentemente mais calmo, com Biden na presidência dos EUA e vários países saindo da recessão ao mesmo tempo, desenham um cenário que potencialmente favorece o Brasil, como produtor de matérias-primas, diz Fernando Lovisotto, sócio da Vinci Partners. “A tendência de dólar mais fraco deve fazer o fluxo de dinheiro circular mais, com as commodities para cima.”

Localmente, ele diz que o mercado está vivendo duas histórias. Na bolsa, as ações têm se valorizado por causa do capital externo, enquanto os contratos futuros de juros apontam altas de taxas à frente por conta da incerteza fiscal e da rolagem da dívida.

A Vinci trabalha com um cenário-base em que o governo não vai romper o teto de gastos e que a inflação é pontual, voltando à normalidade ao longo do ano que vem. Isso possibilitaria ao BC manter a Selic em 2% ou elevar um pouco no segundo semestre de 2021. “O juro real de curto prazo negativo ou próximo de zero vai fazer com que os investidores continuem o processo de migração para a bolsa”, diz Lovisotto.

Em 2020, ele lembra que quem deu suporte às ações foi a pessoa física, enquanto os investidores institucionais, como os fundos de pensão, ainda não haviam aumentado a alocação em renda variável.

Lovisotto acredita que o fluxo externo para a bolsa tende a prosseguir, porque os movimentos dos estrangeiros costumam ser prolongados, na entrada ou na saída. “Com cenário externo favorável, a Ásia se recuperando da covid, estão surfando a onda dos emergentes. E, daí, compram de tudo. Nem sabem onde é o Brasil, só que 5% do peso que tem entre os emergentes, é um fluxo grande para nós.”

Para quem pretende destinar o 13º salário para investimentos, Lovisotto sugere colocar dinheiro em tudo, menos no CDI. “O brasileiro demorou para entrar no mundo de juros baixos, mas se não tiver susto do lado fiscal e a inflação seguir dentro da meta a renda fixa não vai dar nada”, diz. Ele cita fundos imobiliários e ações entre as alternativas descoladas do referencial da Selic. “As famílias vão tomar mais risco mesmo, buscar 4% a 5% em termos reais, mas não se deve apostar num negócio só, mas em classes diferentes.”

Com o país numa encruzilhada e a dívida brasileira chegando a 100% do PIB, nível de economias desenvolvidas, há dois desfechos possíveis para os ativos locais: podem se valorizar, com real se apreciando e juros futuros caindo, se o teto de gastos for respeitado, ou tomar direção oposta na hipótese negativa, diz Fernando Barrozo do Amaral, head da Genial Advisory.

Para ele, as indicações foram positivas nas últimas semanas para o caminho da austeridade. Num cenário binário, a recomendação é manter o posicionamento da carteira, sem ampliar a exposição local por causa da indefinição fiscal, e internacionalizar mais o portfólio. “Para se proteger da situação negativa do país, é preciso ir para ativos não correlacionados com o risco Brasil. Há muita opção de investimentos mesmo em veículos locais com ativos no exterior”, diz.

Essa internacionalização, prossegue, já vem ocorrendo nos multimercados, que ganharam, ao longo do tempo, capacidade para gerir ativos fora do Brasil, com parte relevante dos retornos extraída dessas estratégias. Adicionalmente, ativos estrangeiros já podem ser acessados pelo público de varejo por meio de Brazilian Depositry Receipts (BDRs), de ações ou fundos imobiliários internacionais. Os fundos globais são outra forma de testar as águas externas.

No Brasil, a gestora de patrimônio já tinha reduzido a exposição a NTN-Bs longas porque é o tipo de ativo que pode sofrer se o fiscal pender para o pior desfecho, enquanto manteve os vencimentos mais curtos. Em bolsa, a casa diminuiu marginalmente a parcela investida, aumentando em multimercados com mais agilidade para se mover de um lado ou outro.

Com um cenário externo mais benigno, Fabricio Taschetto, sócio-fundador da ACE Capital, acha que o Brasil tem condições de desatar o nó fiscal de forma relativamente fácil. “O problema é que o presidente [Jair Bolsonaro] não tem dado sinais tão bons assim”, diz. Mesmo com dúvidas sobre a extensão do auxílio emergencial,

ele acredita que o teto de gastos será respeitado. Isso abriria uma frente de ganhos com juros, o real e a bolsa.

Por ora, o gestor prefere ações no exterior, já que há uma avenida para a retomada do crescimento global. Num horizonte de três a quatro meses, é no câmbio que ele vê boas perspectivas de ganhos, com valorização do real, mas há alguns problemas pela frente a serem superados antes de embarcar nessa tendência. Ele cita a extensão ou não do auxílio emergencial e o fluxo dos bancos para redução de “overhedge”. Parte dessa demanda já vem sendo executada pelas instituições e, se necessário, o BC pode vender moeda para não gerar estresse com saída de recursos na virada do ano, pondera.

Em títulos públicos, o posicionamento é considerado mais perigoso por Taschetto. “As Bs [NTN-B] longas têm muito valor, mas há o risco de não cumprimento do teto.” Na bolsa local, as preferências da ACE estão em companhias alavancadas, que possam se beneficiar de uma retomada cíclica da economia. “Mês a mês, os dados de atividade vêm surpreendendo.”

Um contexto macroeconômico em melhoria tem provocado otimismo em relação à história do Brasil, segundo análise de Esteban Polidura, diretor de soluções e produtos do Julius Baer para as Américas. Conforme descreve, o consenso de analistas prevê que o PIB tenha uma queda de 5% neste ano, mas já aponta crescimento acima de 4% em 2021. Apesar das perspectivas fiscais desafiadoras, a avaliação é que o mercado brasileiro pode continuar se beneficiando da mudança tática dos investidores.

Entre as principais sugestões do especialista é sempre manter a calma. “Aqueles que venderam suas ações no início do processo e nunca voltaram ao mercado de ações perderam mais de 60% em retorno potencial”, diz. Ele acrescenta que manter muito dinheiro em caixa significa perder dinheiro na maioria das moedas, considerando inflação e impostos.

27.nov.2020
Boa relação entre retorno e risco em long biased – Valor , 27 de novembro de 2020

Recursos alocados em aluguel de ações e derivativos
Por Mônica Magnavita

Ao longo dos últimos três anos, quatro fundos long biased se destacaram por apresentar boa relação entre retorno e risco. Estratégias como a de reduzir ou aumentar a exposição comprada em Bolsa, aliadas ao uso de instrumentos de hedge, foram utilizadas por gestores dos fundos da AZ Quest, Truxt, Opportunity e Squadra para mitigar perdas e alavancar ganhos. O long biased, produto multimercados que permite ao investidor obter bons retornos tanto com a alta quanto a baixa da cotação das ações, dependendo da posição da carteira, passou por solavancos este ano, mas
tem demonstrado boa performance mesmo em momentos de crise, como a de 2020. A flexibilidade de gestão desses fundos, que podem alocar recursos em derivativos, aluguel de ações e venda a descoberto, atrai investidores dispostos a correr riscos para obter ganhos elevados.

O long biased (long significa comprado e biased, tendência) da Truxt, o Long Bias FIC FIM, obteve rentabilidade de 30,27% este ano, até 17 de novembro, resultado que chama a atenção quando comparado ao de qualquer outro indicador. O do CDI, por exemplo, foi de 2,52% no mesmo período. Com um suporte de 12 analistas de Bolsa, responsáveis pela escolha das empresas que compõem os portfólios dos fundos, o long biased da Truxt viu seu patrimônio crescer de R$ 2,5 bilhões em janeiro para R$ 7
bilhões em outubro.

O fundo tem posição líquida comprada em Bolsa, mas o percentual oscila de acordo com a estratégia do gestor. A aplicação inicial mínima é de R$ 20 mil. “Esse timing é a nossa expertise, já que o produto tem muita flexibilidade”, disse José Tovar, CEO da Truxt, empresa criada em 2017 e que hoje administra cerca de R$ 18 bilhões. “Temos uma série de instrumentos para fazer hedge ou operar em paralelo a posição net (líquida) comprada em bolsa. Usamos mercado de juros, de dólar e de
ouro. Quando se acerta nas posições e nos hedges a rentabilidade é fenomenal”, diz. Este ano, o fundo obteve ganhos com ações de empresas voltadas para o e-commerce, como Magazine Luiza e Mercado Livre, e de ativos financeiros, como B3, XP e BTG.
“Estamos animados com uma possível melhora da Bolsa refletindo o cenário internacional”, disse Tovar. Há, entretanto, riscos consideráveis no mercado nacional. O maior, segundo ele, é a questão fiscal.

Com um patrimônio de R$ 1,048 bilhão, o AZ Quest Top Long Biased FIC FIA, da AZ Quest, gestora independente criada em 2001e associada ao grupo Azimut desde 2015, tem, atualmente, exposição em ações de 85%. Hoje, o fundo conta com papéis de 15 empresas, distribuídas pelos setores de tecnologia, saúde (Intermédica e Hapvida), ecommerce e consumo (Natura). “Temos bastante flexibilidade para atuar; em um cenário otimista a posição comprada pode ir até 100%. Acima disso, podemos usar derivativos. Já em cenário pessimista, mantemos um mínimo de ações, além de exposição em derivativos, como os de opções e futuro para proteger a carteira”, diz Welliam Wang, gestor da AZ Quest. O fundo também pode investir até 20% em ações no exterior. “Em geral, compramos empresas brasileiras listadas fora, como Mercado Livre, XP e PagSeguro.”

Durante o período de eleições no Brasil, em 2018, o fundo operou alavancado com derivativos. “Vendemos as ações de menor Beta (menor volatilidade), como as de telecom, e compramos ações de Beta mais alto, como a de bancos, Petrobras, de empresas do setor aéreo e de construção”, disse. A estratégia contribuiu para que o AZ Quest Long Biased atingisse rentabilidade de 38,75% no ano, mais que o dobro do IBrX, de 14,42%, que serve de benchmark.

O Opportunity Long Biased FIC FIM foi criado em 2013 para atender à demanda de um produto com mais margem de manobra para alocar recursos, a fim de evitar riscos em Bolsa em períodos críticos. Com uma carteira que pode oscilar sua exposição em ações entre 20% e 120 %, o fundo normalmente opera na faixa que vai de 40% a 90% comprado em Bolsa. “Pequenas diferenças são importantes”, disse Luiz Constantino,
sócio-gestor do Opportunity. “Junto a isso, temos flexibilidade para ter posições em outros mercados, como o da Bolsa americana, de dólar e juros, embora não seja o foco.”

Desde o fim de outubro, a exposição é de cerca de 75% em ações de 25 empresas. Entre elas Via Varejo, BTG, Vale e BR Distribuidora, além de outras do setor energia elétrica e saúde. “ Temos trocado nossa exposição no país por uma posição maior na Bolsa americana.”

23.nov.2020
Na Truxt, apostas ‘convictas’ na Bolsa e preocupação com o fiscal convivem – O Globo, 23 de novembro de 2020

Por Rennan Setti

A gestora carioca Truxt, cujo patrimônio cresceu de R$ 13 bilhões para R$ 17,5 bilhões no ano da pandemia, está otimista com a Bolsa, mas preocupada com o país. Dois dos seus fundos acumulam retorno superior a 20% no ano graças a apostas em ações de “alta convicção”, segundo o sócio-fundador José Tovar, mas “não está nada claro que o fiscal esteja resolvido”.

Os melhores desempenhos da Truxt se dão, este ano, nos fundos Long Bias (31,4% em 2020; fechado para captação) e Valor (21,4%; aberto). A carteira dos dois é composta, sobretudo, de ações brasileiras — apesar de o índice de referência Ibovespa ainda acumular queda de 10% no ano.

— A gente não olha para o Ibovespa, a gente olha para o que chamamos de ações de high conviction (alta convicção), com bom management e vantagens competitivas — afirma Tovar, que fundou a Truxt em 2017 depois de uma carreira na ARX, da qual também foi sócio-fundador.

Segundo o gestor, entre suas principais “convicções” estão companhias ligadas ao fenômeno do financial deepening, como XP, BTG Pactual, a própria B3 e a empresa de maquininhas Stone.
Outro pilar é o e-commerce, com apostas como Magazine Luiza, além de companhias brasileiras com ambições globais, como Alpargatas (dona das Havaianas) e Natura, que comprou Avon e The Body Shop.

— Sabemos que XP e Magazine Luiza têm múltiplos altos, mas ainda estão entregando. Nossa política é não ficar girando a carteira. Temos 12 analistas para avaliar as ações e fazer posições mais de longo prazo. E achamos que o portfólio tem empresas bem geridas, com caixa e com mais de 7% da Petz.

A gestora do Leblon também entrou em alguns IPOs que deram certo, como o da rede de pet shops Petz, da qual tem 7,4% do capital, e das lojas de material de construção Quero-Quero.

Segundo documentos da CVM, a gestora também tem 12,2% da Plano & Plano, mas a construtora perdeu valor desde o recente IPO. No setor, a Truxt aumentou há algumas semanas sua posição na tradicional Cyrela, da qual tem 5,1% das ações.

O otimismo com a Bolsa contrasta com a visão de Tovar para a trajetória fiscal.

— O fiscal preocupa muito. A auxílio emergencial foi necessário, mas também foi maior do que o Brasil poderia pagar. Ele deveria existir somente até o fim do ano. Agora, existem as tentações políticas do Congresso e as ambições do presidente, que me fazem se perguntar se ele não teria vontade de estourar o teto. Não está nada claro qual será a solução para esse problema — critica Tovar, que espera que o Banco Central eleve juros no ano que vem por causa da inflação dos alimentos e da alta do dólar, o que só coloca mais pressão sobre a trajetória fiscal.

11.nov.2020
Risco fiscal limita alívio externo e gera cautela – Valor Investe , 11 de novembro de 2020

Preocupações devem voltar com força nos próximos dias, dizem analistas
Por Lucas Hirata e Marcelo Osakabe

Embora o exterior tenha sido favorável à tomada de risco nos últimos dias, o incômodo com a questão fiscal continua a fazer sombra e a limitar ganhos mais robustos no Brasil. De acordo com analistas e gestores, questões como o impasse sobre o teto de gastos ficaram apenas dormentes nas últimas semanas, à espera do fim das eleições municipais, mas devem voltar com força nos próximos dias.

“Tenho a impressão de que o mercado está dando o benefício da dúvida. Passadas as eleições, as reformas precisam voltar à pauta. Caso contrário, tende a ocorrer uma reação negativa”, diz o diretor de investimentos da TAG, Dan Kawa. Para ele, evidência de prêmio de risco, a curva de juros segue bem inclinada, apesar da melhora recente. “Sem reformas, há espaço para altas maiores de juros. “

De fato, o prêmio entre taxas de longo e de curto prazo continua próxima dos maiores patamares do ano. O spread entre a taxa do DI para janeiro de 2027 e a do DI para janeiro de 2022, por exemplo, ficou ontem em 4,04 pontos percentuais, perto do pico de 4,54 pontos de 2020. Da mesma forma, o dólar fechou a R$ 5,3710, acumulando queda de 6,43% em novembro. Ainda assim, o real permanece como a segunda moeda de pior desempenho do ano (25,62%), atrás apenas da lira turca (27,07%).

O receio sobre os próximos meses é grande entre alguns participantes de mercado. De olho no bate-cabeça que se instaurou em Brasília em meio a questões como a eleição para a presidência do Legislativo, alguns temem que uma decisão sobre o teto e o Renda Cidadã se dará no “último minuto”, o que abre risco de forte piora dos preços dos ativos.

Para o executivo-chefe da Truxt Investimentos, José Tovar, o país vive um “cenário binário”, precisando escolher, nos próximos meses, entre manter o teto de gastos e evitar assim uma piora das condições econômicas, ou manter alguma forma de transferência de renda suplementar, como quer o presidente Jair Bolsonaro.

“A dúvida que tenho é se o presidente topa perder a popularidade da ajuda emergencial para garantir o teto. O mercado já precifica muito desse receio, é só ver o dólar perto de R$ 6. Tivemos um alívio passageiro com a eleição de Joe Biden. Agora, será preciso tomar uma decisão”, diz o profissional.

Em outra linha, o economista-chefe da Quantitas, Ivo Chermont, alerta para a necessidade de aprovação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) até o fim do ano ou no começo de 2021. “Se isso não acontecer, você gera quase um ‘shutdown’ do governo”, afirma. “Mas o Orçamento é um debate mais longo. Eu acho que um Orçamento todo dentro do teto de gastos não está no preço”, alerta.

Para o profissional, inclusive, o valor justo do dólar no momento é de R$ 4,80. “Dado que ainda estamos em R$ 5,40, uma preocupação fiscal significativa está embutida no preço”, acrescenta.

O “copo meio cheio” nessa situação é que uma resposta positiva do governo carrega um potencial de melhora muito maior para os ativos que o seu contrário, diz Patrícia Pereira, estrategista da MAG Investimentos. Nesse sentido, seria importante focar no mais urgente: aprovar um orçamento dentro do teto e, possivelmente, deixar a discussão sobre o Renda para mais tarde. “Se conseguir o básico, está muito bom”, diz Patrícia, lembrando de sugestões como a de pautar a reforma tributária continuam a rondar o noticiário.